11 de novembro de 2009

O medo de Pedro

Pedro era um rapaz bastante supersticioso. Não passava embaixo de escadas, não gostava de gatos pretos e evitava sair de casa nos dias de sexta-feira treze, pois acreditava que algo terrível lhe aconteceria.

Mas o principal era que Pedro cria em tudo o que lhe diziam. "Pedro, não coma leite com manga que faz mal, menino!" E ele não comia. "Pedro, não vá por aquele caminho, pois você pode ser assassinado por algum maníaco!" E ele não ia. Pedro fora muito bem educado pela mãe, que lhe ensinou o respeito e a solicitude. Gostava de ajudar os outros e sua generosidade só era menor que seu receio excessivo.

Veio a era da internet popular e com ela o ICQ, o MSN, o Orkut... E Pedro, ainda que com medo de seu computador ser contaminado por um vírus terrível, possuía uma conta em cada site. Pedro não adicionava desconhecidos à sua conta. Conhecidos, apenas com aviso prévio. Se alguém conhecia Pedro em uma noite qualquer da vida e dizia "Pedro, me adiciona no MSN?", a resposta era imediata: "Desculpe, eu não tenho MSN...". E logo mudava de assunto.

Daí pra frente vieram aquelas correntes, dicas de saúde e coisas do tipo enviadas via e-mail. Pedro seguia todas à risca, religiosamente, e as passava adiante. Pedro enviava às cinquenta pessoas nos quatro minutos de prazo, trêmulo de medo de lhe acontecer um acidente nas 24 horas seguintes. Tomava um litro d'água todas as manhãs, sempre colocava uma laranja no meio da feijoada, não usava mais desodorante, não dirigia mais com medo de que algum maníaco do estacionamento o matasse e não atendia mais telefonemas da polícia. Aliás, não atendia mais o telefone. Não possuía telefone celular, com medo de o número ser clonado.

O tempo passou e as coisas foram ficando cada vez mais difíceis para o medroso Pedro. Não tomava mais leite. Não sabia mais qual religião seguia, se a Católica, a Budista ou a Congressista com Coração de Tigre. O cúmulo foi quando Pedro, virgem, terminou o namoro alegando que sua namorada iria difamá-lo na internet com vídeos de sexo entre eles. "Mas Pedro, você é virgem!!", disse a namorada, embasbacada. "Ainda assim, é melhor não arriscar. Não se pode confiar em ninguém hoje em dia."

Hoje Pedro não sai de casa, com medo do que os outros possam fazer com ele. Não conseguiu passar adiante uma corrente que dizia que, se não a enviasse a duzentas pessoas no mínimo, ele morreria em 36 horas. Até agora Pedro espera, cheio de medo, seu trágico fim. Não confia mais em ninguém e vive isolado, com receio de que alguém o assassine. Quase não dorme, vigiando, e também quase não come. Tem medo de sua comida estar envenenada. Pedro*, coitado, agora tem medo até de si mesmo.

Pobre Pedro.

*Nome fictício para preservar a identidade do personagem.

16 de outubro de 2009

Ma petite hirondelle...

Foi uma surpresa para mim notar que você havia voltado. É bem verdade que você ainda existia há pouco tempo - cerca de um ano e meio, mais ou menos -, mas eu sinceramente achava que houvesse morrido. Isso me fez pensar que não voltaria, e que eu viveria nessa imparcialidade eternamente. Confesso que essa ideia me perturbava, machucava e fazia pesar minha consciência de forma que eu já não podia suportar.
Bem, nada é eterno e o bom filho à casa torna. E você tornou naquela fria manhã de terça-feira. Qual não foi minha surpresa ao me ver completamente tocada por aquela canção canadense! O resultado foram doces lágrimas mudas e invisíveis, que me tocaram a alma e fizeram-me voltar aos velhos tempos.
O que minha professora fez por nós naquela manhã é inexplicável. Acho que não faz o mínimo sentido agradecê-la por isso, mas é fato que ela me fez voltar a mim. A cada frase cantada pela linda voz do intérprete canadense, meu coração se abria e inchava, de forma que o resultado foi uma mente plena de pensamentos o mais doce e piegas possível.
Não posso colocar em palavras o tamanho e a força do bem que a sua volta me causou - isso seria superar-me de forma inédita. Sendo assim, penso que agora só me resta agradecer. Com um "muito obrigada" mesmo, porque também para isso não tenho palavras. Tudo que posso esperar é que assim continuemos, você fazendo parte de mim, até o fim. Ou pelo menos até quando der...

7 de outubro de 2009

Ao amigo da papelaria

Eu queria era te fazer um desenho.
Um desenho livre como o que me deste.
Um desenho lindo como o que me deste.
Mas cada um faz o que pode.
E se somos amigos, não te importarás
e viverás
o sentimento,
a diversão,
a distância.
Não é maior o entusiasmo que a realidade
nem maior a distância que a amizade.
Então somos amigos? Não sei.
Não somos amigos? Quem pode julgar?
Realmente importante é só a força de vontade.
E a gratuidade vem com o tempo,
não te preocupes.

5 de outubro de 2009

Defenestração

Quero vomitar palavras magoadas,
dar um jeito nessa dor latente.
Tudo gira e gira em torno,
e o sono é ainda persistente.

Uma parte da angústia fora afogada
no mar, com toda aquela espuma apaixonante.
E a não-volta tão desejada
fora abafada pelo bom senso gritante.

Oh, bom senso! Como eu gostaria de não tê-lo!
Como eu queria transcender minha consciência!
Deixar de lado, expulsar de mim todo o resto,
tudo em que há vacilo e inocência!

E assim correr desnuda pelo caminho,
com os olhos cerrados, esbaforida,
para, sem medo, buscar o efêmero
retomando a utópica felicidade pertencida.

22 de setembro de 2009

Extrato de uma pré-noitada de sábado

- Gente, vou tomar banho.
- Ah não, Bianca! Deixa a Milene ir primeiro. Você demora muito.
- Então vai, Milene.
- Não, Bianca, pode ir!
- Vou mesmo, nem precisa oferecer de novo!
[Batidas na porta.]
- Bianca, anda logo, não vai dar tempo!
- Já estou acabando, peraí!
As garotas estão em festa. É noite de sábado, e as três decidem sair juntas.
- Eu sempre me animo pra sair no final de semana!
- Já tomou banho, Louise?
- Eu tomo banho em cinco minutos!
- Então vai, Louise, senão a gente vai se atrasar!!
- Calma, Milene, até meia-noite a gente chega lá, né?
- Não sei...
- Hum, a Bianca está se maquiando! O que está acontecendo?!
[Bianca dá um tapa no traseiro de Louise.]
- Ai! Viadinha.
- Vai pro banho logo, menina.
[Todas já estão vestidas.]
- Gente, como estou?
- Hum, tá gata. Com essas unhas vermelhas então...
- É hoje que você tira a barriga da miséria.
- Bobona.
- Hoje eu pego alguém!
- Eu também!
- U-hu! Estamos lindas. Vamos ser rainhas de novo!
- Dá licença, agora é minha vez.
-Peraí, só falta o rímel!
- Você disse isso há meia hora.
- Eu quero também! Me empresta?
- Qual você quer, o azul ou o roxo? Tem o marrom também.
- Eu quero esse que está na tua mão.
- Peraí... Toma.
- Tá azul?
- Não, só quando bate a luz.
- Pronto.
- Pronto?! Aleluia! Vam'bora. Já são dez e vinte!
- Caraca! Já?! Então vamos.
- Já.
- Fecha aí, Bianca. O gás tá fechado?
- Eu fechei.
- Então vamos. Tchau, vizinho, você não sabe o que está perdendo!
Rindo de si mesmas, as três descem as escadas, orgulhosas de si e com olhares triunfantes. Para elas, o final de semana está apenas começando...

18 de setembro de 2009

Eu conheço o teu sal...

Depois de anos sem falar com ele, tomei coragem e fui vê-lo. Como seria o reencontro? Comecei a recapitular tudo o que havíamos vivido em um passado um pouco distante. Mágoas, ressentimentos, rancor, tudo isso estava guardado em ambos os corações, creio eu. Queria acabar com o que já há algum tempo me destruía. Chegando lá, meu coração bateu mais forte: o que dizer e como começar?
- Ben?- Falei, cabeça baixa, olhos envergonhados.
Ele nada disse, apenas me olhou com olhos que eu não reconhecera na hora. Os olhos vivos que tanto elogiei outrora deram lugar a olhos tristes e distantes, fazendo assim com que seu dono me parecesse quase irreconhecível. Aquele não podia ser o Ben que eu fora visitar.
- Você veio fazer o quê aqui? Hein? Veio brigar comigo de novo?
- Ben, eu... Olha só, esquece tudo, tá bem? É por isso que eu vim aqui.
- Esquecer tudo como? Você disse que não queria mais me ver.
- Disse. Eu sei que disse. Mas esquece, por favor, vai. Você não está bem, né?
Ben emagrecera consideravelmente e já não possuía aquela energia que lhe era característica. Tinha os olhos parados, o olhar perdido, e parecia-me que estavam agressivos também. Estava disperso, falava pouco, mexia-se também pouco; tinha o ar de quem não tinha mais esperanças. Compreendi. O que mais podia fazer senão compreender? Ao mesmo tempo, veio-me uma vontade enorme de abraçá-lo e de dizer-lhe que eu estava ali para me redimir. Só que eu tinha medo de sua reação.
- Bem? Eu estou é doido pra ir embora. Mas ainda não entendi: você me perdoou, é isso?
- Perdoei.
- Perdoou mesmo?- Pareceu-me que seus olhos brilharam nesse momento, mas acho que foi só impressão.
- Perdoei.
Ficamos em silêncio por um momento que me pareceu enorme.
- Peraí... Você só me perdoou para não ficar com dor na consciência. É isso? Leu em algum lugar que não perdoar faz mal à saúde, não é?- Ele oferecia resistência. Nada anormal; eu o conhecia muito bem para ficar espantada com isso.
- Ben, para com isso...
- Quando a esmola é demais o santo desconfia! Tem ideia do que você faz comigo?- Ele tentava disfarçar as lágrimas.
E eu não o estava reconhecendo. Ben chorando? E na minha frente? Senti que aquele choro não era por minha causa. Por certo era um desabafo, uma forma de se livrar de tudo que lhe acontecia e fazia-lhe mal. O que aquele lugar estava fazendo com ele? O que lhe faziam aquelas pessoas?
- Vem cá...- Estendi-lhe os braços e ele, ao contrário do que pensei que faria, abraçou-me com ternura.
Tínhamos muito o que conversar e, principalmente, tínhamos que nos perdoar mutuamente. A cada palavra proferida, a dor diminuía, e pelo menos de minha parte o coração ficava mais leve.
O encontro durou algumas horas (percebo agora que foram horas preciosas em minha vida), mas chegara a hora de ir embora.
- Preciso ir.
- Você... Você vai voltar?- Havia um fio de esperança em sua voz. Começamos a nos entender, mas ainda havia muito o que fazer.
- Volto sim. Tchau, Ben.
- Tchau, Virgínia.
Fui embora sem olhar para trás, com os olhos já cheios d'água. É claro que eu voltaria. Faria o que pudesse para melhorar nossas vidas. E eu me dedicaria.
Queria vê-lo vivo.

11 de setembro de 2009

"Nós encontraremos nosso direito de ser. Até lá, os lilases florescem toda primavera." - Histórias para aquecer o coração dos adolescentes


Quando cheguei em casa vocês estavam lá, lindas, abertas, imponentes, como que me esperando para vê-las. Quase cheguei tarde: pareceu-me que estavam em seu limite, e que não aguentariam mais que cinco ou seis dias.
Era noite já, e o seu perfume não era mais tão forte quanto eu me lembrava. Fui cumprimentá-las, pedindo desculpas pela minha ausência no último ano. A culpa não foi minha, vocês sabem disso. E tanto o sabem que não fizeram pouco caso de mim. Receberam-me bem, como se recebe o filho pródigo. Tamanha foi minha emoção que cheguei às lágrimas. As coisas mudam, as pessoas não são mais as mesmas, mas a alegria de vê-las e senti-las próximas de mim ainda existe. A sutil diferença é que agora não espero; sou esperada.
E vocês entendem. Fui eu quem as esperou ansiosamente todos os anos. Sou eu quem as recebe com emoção e alegria, todas as vezes em que chegam. Era eu quem lhes sentia o cheiro antes de ir à escola, todas as manhãs, como que lhes dando bom dia. Sou eu quem tem uma de vocês guardada, já seca e inodora. Sou eu quem as liga, a cada ano, a algum momento marcante da minha vida... Como da última vez, como agora. E vocês me agradecem com sua beleza e perfume extraordinários, quase maravilhosos.
A cada ano, a cada idade minha, a cada etapa, suas cores, texturas e o seu inesquecível perfume me parecem mais saborosos, mesmo sabendo que são os mesmos. E apaixono-me cada vez mais. Essa paixão faz com que, mal se termina o mês de agosto, quero-o novamente só para vê-las ali vivas, cheirosas, inabaláveis. Só que desta vez eu as vi em setembro.
Amanhã eu voltarei pra casa e ainda não sei se vocês estarão lá. Talvez sim, ou talvez o tempo já as tenha levado consigo. Se assim for, agora só no próximo ano. Uma outra Julia estará lá, em uma outra situação, com outras perspectivas, mas pronta para recebê-las.