18 de fevereiro de 2011

Não deixo marcas no caminho para não saber voltar”- Roberto Carlos

Caminhou até a ponte uma última vez antes de ir embora, e o que lhe aflorou foi um sentimento bom e ao mesmo tempo ruim de nostalgia. Pela primeira vez tomou coragem para olhar para o horizonte, e ficou um pouco surpreso ao ver as flores de sua infância:

- Margaridas!

E isso o fez lembrar-se da mãe, também Margarida, e rapidamente o cheiro das referidas flores, tão conhecido, penetrou em suas narinas e o fez sorrir quase que involuntariamente. Era a lembrança mais viva de seu passado, um passado recente, mas que parecia a muitos anos de distância. Um passado quase morto, não fossem as poucas lembranças felizes que ainda restavam.

Beijou as flores com um carinho pueril e continuou firme em sua caminhada rumo ao futuro. O que sofrera ficara para trás, o que aproveitara de bom também, e agora o que importava era o que viria, não o que passara. Tudo o que era bom não lhe pertencia mais, e ele se sentia completamente suscetível a qualquer infortúnio que lhe pudesse ocorrer. Há muito decidira não levar nada de sua vida anterior à sua partida e, apesar das dificuldades, conseguira cumprir à risca sua decisão. Claro que haviam coisas que mereciam ser levadas; todavia, elas sempre se interligavam com fatos e coisas não memoráveis de um passado frio e hostil, o qual sempre o assombrava nos momentos mais inesperados.

Caminhou, caminhou, cansou-se, caminhou novamente, deicidiu não mais olhar para o que havia atrás de si. “Acabou-se”, pensou ele. “O que tenho para fazer é o agora, nesse instante, nestas circunstâncias. Nem o ontem, nem o amanhã; somente o hoje.”

E assim foi, andando cuidadosamente por seu novo caminho e seu ainda mais novo destino. Desconhecido, determinado e só, unicamente só.


6 de fevereiro de 2011

Maracuru

nas paredes da noite se escondia
tentando obter um pouco de alegria
ela, contente, se divertia
com o som que ele fazia.

era fascinado pela noite, e esta bem o sabia;
por isso em sua cortina o escondia.
ele cantava para ela
tentando preencher sua alma vazia.

e assim se animava
o garoto deprimido.
o exímio artista do coração errante
só era feliz escondido.

24 de outubro de 2010

Quando a noite já estava densa, naquele horário em que os pensamentos fluem melhor, a menina frágil se transformava em mulher. Era a moça de batom vermelho, ou ainda, em algumas vezes, a moça do salto. Salto?!, diriam alguns. Sim, salto, e você fica linda assim, diria outro, o outro que era único e responsável por toda aquela mudança.
A moça deixava de lado as Barbies de outrora, as lágrimas de insegurança e lá ia ela, sem tropeçar, apenas com um apertozinho no peito, "será que vai dar certo?". Dava, sempre deu. O batom sempre fazia sucesso, o sapato de salto (ainda não tão alto assim; ela começava a se acostumar com a "novidade"), o vestido, a pouca maquiagem nos olhos. "Estou bonita?", ela precisava de segurança. A resposta era sempre positiva. Sorte dela.
E tudo era lindo, e tudo era bom, e todo o sacrifício valia a pena; quando chegava a madrugada, apenas dois sorrisos, um deles tímido, pouco antes do sono dos deuses. Era a recompensa necessária.
Aí via as flores, as estrelas, sentia o perfume da felicidade. Era feliz. Pelo menos por essa noite, sentia-se liberta.

27 de agosto de 2010

Depois da meia-noite, quando a lua estava no alto do céu, eu pensava naquilo. Naquilo que me olhava com ternura de vez em quando. Naquilo que me segurava a cintura com força no momento certo, no lugar certo, durante o tempo certo. Naquilo que me tirava o sono e me fazia ter um brilho incontrolável nos olhos quando dos nossos encontros, noturnos ou diurnos, tanto fazia.
Eu olhava para o escuro do quarto, ali só na madrugada, e pensava "meu Deus, que sorte a minha. Até quando isso vai durar?", chorando, como sempre. Eu sempre chorava. Isso não só me irritava, como ainda me irrita. E muito. Eu ainda tinha aquela coisa adolescente de me doer o amor no peito, como outrora já doera, várias vezes.
O amor citado doía, doía, doía, de tão grande. Ruim? Nããão. Disse um autor famoso "Tão bom morrer de amor e continuar vivendo". É, né? Quem não morre de amor? Será que existe alguém?
Se existe, eu queria ser como essa pessoa. Juro.
Ou não. Eu morro todos os dias, me esgoto até o último suspiro a cada demonstração pura de afeto, e renasço novamente depois dela. Acho que, enquanto pessoa apaixonada, serei uma eterna fênix.
Vinha o sono, calmamente, e encolhia minhas pernas e fechava meus olhos. Lembrava de "Rouge et Blanc", texto lido em uma aula da faculdade.
Ô Aataenstic, mãe dos indianos, ajude-me a manter-me de pé, com ou sem o que me faz doer o peito.

27 de novembro de 2009

E eu ainda me perco em seus olhos...

Li certa vez em um blog que gosto de visitar uma frase que dizia o seguinte:
"Ainda estou me procurando no oceano de seus olhos."
Isso me levou de volta àquela sexta-feira, em que ele deixou seus olhos marejados me molharem os ombros. A sexta-feira decisiva... A sexta-feira em que teve início a mudança da minha forma de observá-lo. Passei a olhá-lo com mais ternura perceptível- ela sempre esteve presente, mas a partir daí deixei-a transparecer, já perdendo um pouquinho do medo que me é característico.
Mudei a forma de observá-lo, como já disse, mas não por isso passei a compreender o que acontece. Ainda é um mistério- ainda é um enorme mistério- para meu coração entender as mensagens sensíveis que ele me envia. Não, ele não é indecifrável: o problema está comigo. Acho que falta sensibilidade e tato de minha parte. Falta parar para ouvir o coração, coisa que não faço já há um tempo considerável. Falta parar para analisar as entrelinhas de nossas conversas. Falta parar para interpretar o tempero daquela comida, aquela gargalhada que é solta de repente, aquela piada que só tem graça para um, aquele olhar terno lançado quando é a vez de meus olhos ficarem marejados...
Enfim, acho que cometo o mesmo erro de tempos atrás. Não me perdoo por ele, pois paguei um alto preço por tê-lo cometido, mesmo com a consciência de que a culpa não foi minha.
Mas desta vez vou me redimir. Navegarei, com sensibilidade e doçura, pelas vagas retirantes de seu inédito e misterioso mar...
Eu vou me encontrar tanto em seu oceano como em sua praia. Ah, vou.

18 de novembro de 2009

Paulo sabia demais

Paulo sabia demais. E isto não é um trocadilho com a piada do Pablo.
Quando cheguei à trágica conclusão de que Paulo sabia além do que devia, resolvi que não havia outro jeito. Então matei-o, com dó e piedade. A situação chegou ao ponto de não haver mais escolha: ou ele me assassinava ou eu dava cabo de sua vida.
Paulo era a minha esperança de redenção. Eu tinha por ele uma afeição especial, e ele percebera isso demasiadamente rápido. Enganou-me com aqueles olhos brilhantes e misteriosos e envolveu-me em uma teia de mentiras. Eu não tinha outra opção. Ele sabia demais. E isso me mataria mais cedo do que eu poderia imaginar.
Eu não me lembro exatamente como foi. Só sei que, quando percebi, estava com a adaga toda ensanguentada nas mãos. Paulo me lançava um último olhar de quem se vingaria, os olhos já sem brilho e sem vida.
Agora estou aqui, com seu corpo estirado em meu quarto, enquanto escrevo este texto. Estou apavorada. Não sei ainda como agir, mas não me arrependo do que acabei de fazer.
A culpa foi toda dele. Paulo sabia demais.

16 de novembro de 2009

Nem tudo é o que parece ser

Nem tudo é o que parece.

Se o sofá tremular de repente,

Pode ser que seja só o seu reflexo no espelho- que tremula com o vento vindo da janela aberta.