20 de novembro de 2015

Eu te conheço desde antes de eu gostar da chuva
que caía quase sempre na hora exata
E não surpreendia a nós dois.

Eu te conheço desde os tempos de magreza,
dos tempos de pipoca, de amor platônico,
da inocência misturada à tristeza.

Eu te conheço desde o sol, escaldante,
até a lua errante
que rege as minhas cólicas
e as suas velas não mais acesas.

Eu te conheço desde o vale até o litoral,
do bem confortável até o doloroso mal,
desde os beijos inocentes até os gozos confusos.

Não somos mais os mesmos de outrora
e a roda da vida continua a girar.
Só as estrelas são as mesmas ─
as maiores continuam sendo planetas.

Eu te conheço desde a casa na praia
e os sonhos de liberdade:
eu te conheço desde o tempo que não existe.

7 de junho de 2012

Acabou.
O círculo finalmente está fechado.
O Carnaval quando se vai traz muita tristeza
mesclada com o alívio difícil e feliz
de tudo voltar a andar pra frente.
Mas assusta, também.
E o que dá medo na gente
não é antes o ano vindouro-
é o Carnaval do ano que vem.

22 de setembro de 2011

Auto Nu

Eu te perdoo por querer ter sido egoísta quando na verdade tu nunca quiseste sê-lo. E te perdoo por acreditar piamente nisso de “olhos de ressaca” desde os dezesseis anos, como se já tivesses visto algo parecido durante tua até então breve vida. Por reiterar, com olhos sonhadores, que, sim, alguém tinha os olhos verdes mais misteriosos que já conheceras, tu não merecias o julgamento nem meu nem de ninguém menos gentil. Eu te perdoo pela panela ainda quente sobre a perna mas com a comida já fria, pelas lágrimas vertidas em dias difíceis e especialmente pelo modo como, quase inocentemente, tens teu próprio tempo, ainda que nunca tenhas conseguido de fato deter o poder da tua própria vida, sabendo que as piores amarras são as sutis e invisíveis.

Eu te perdoo principalmente por às vezes teres sonhos leves e doces com uma lembrança não tão doce assim, e por acordares sorrindo desses sonhos, mesmo com um certo perigo de seres descoberta em tua alegria. E te perdoo por amares (erradamente?) com posse, com força, com a emoção de alguém tão radical. Eu te perdoo pelas lingeries, pelos desejos secretos contidos nelas, e pelo sentimento de poder que isso te causa. E perdoo a crença cega em monogamia, mesmo que tu não saibas muito bem o que isso te acarretará na vida. Eu te perdoo, de olhos fechados, também pelos atos covardes cometidos no passado, bem como a vontade lá no fundo (ou seria lá no raso?) da tua alma de trangredir as normas. Eu perdoo também o que mais odeio em ti, e tu sabes bem o que é. Aprende a lidar bem com isso.

Eu te perdoo pela imaturidade. E, acima de tudo, eu te perdoo pelos poemas.

9 de setembro de 2011

Fechava os olhos com força
E dizia "Eu te perdoo, eu te perdoo, eu te perdoo".
E, no meio dos soluços de enjoo
As lágrimas caíam até fazer poça.

Fazia parte do mundo dos desesperados
Sem alternativa, fazia protestos mudos.
Com todo o esforço, era sempre a mesma, contudo;
A mudança se continha em gritos mal abafados.

Veio a compreensão, o olhar, o pranto
Daquele a quem o perdão era concedido.
Virou-se de lado, a face coberta de espanto
E de resquícios de um sentimento ressequido.

Então o espírito lânguido, febril de lamento
Que amargara um gosto vil escarrado
Fez da repulsa acolhimento-
E pleno de orgulho, vontade, desejo iluminado.

19 de março de 2011

Ao som de Jean-Baptiste Maunier

Por que as emoções se fazem presentes

Em momentos como esse

Tão nossos... tão únicos,

É que somos quem somos. Nem reis, nem poetas- seres humanos.

No trem da vida vão-se todos- até quem não quer.

E todos chegamos a um mesmo lugar;

A diferença é a viagem.


18 de fevereiro de 2011

Não deixo marcas no caminho para não saber voltar”- Roberto Carlos

Caminhou até a ponte uma última vez antes de ir embora, e o que lhe aflorou foi um sentimento bom e ao mesmo tempo ruim de nostalgia. Pela primeira vez tomou coragem para olhar para o horizonte, e ficou um pouco surpreso ao ver as flores de sua infância:

- Margaridas!

E isso o fez lembrar-se da mãe, também Margarida, e rapidamente o cheiro das referidas flores, tão conhecido, penetrou em suas narinas e o fez sorrir quase que involuntariamente. Era a lembrança mais viva de seu passado, um passado recente, mas que parecia a muitos anos de distância. Um passado quase morto, não fossem as poucas lembranças felizes que ainda restavam.

Beijou as flores com um carinho pueril e continuou firme em sua caminhada rumo ao futuro. O que sofrera ficara para trás, o que aproveitara de bom também, e agora o que importava era o que viria, não o que passara. Tudo o que era bom não lhe pertencia mais, e ele se sentia completamente suscetível a qualquer infortúnio que lhe pudesse ocorrer. Há muito decidira não levar nada de sua vida anterior à sua partida e, apesar das dificuldades, conseguira cumprir à risca sua decisão. Claro que haviam coisas que mereciam ser levadas; todavia, elas sempre se interligavam com fatos e coisas não memoráveis de um passado frio e hostil, o qual sempre o assombrava nos momentos mais inesperados.

Caminhou, caminhou, cansou-se, caminhou novamente, deicidiu não mais olhar para o que havia atrás de si. “Acabou-se”, pensou ele. “O que tenho para fazer é o agora, nesse instante, nestas circunstâncias. Nem o ontem, nem o amanhã; somente o hoje.”

E assim foi, andando cuidadosamente por seu novo caminho e seu ainda mais novo destino. Desconhecido, determinado e só, unicamente só.


6 de fevereiro de 2011

Maracuru

nas paredes da noite se escondia
tentando obter um pouco de alegria
ela, contente, se divertia
com o som que ele fazia.

era fascinado pela noite, e esta bem o sabia;
por isso em sua cortina o escondia.
ele cantava para ela
tentando preencher sua alma vazia.

e assim se animava
o garoto deprimido.
o exímio artista do coração errante
só era feliz escondido.