6 de fevereiro de 2011

Maracuru

nas paredes da noite se escondia
tentando obter um pouco de alegria
ela, contente, se divertia
com o som que ele fazia.

era fascinado pela noite, e esta bem o sabia;
por isso em sua cortina o escondia.
ele cantava para ela
tentando preencher sua alma vazia.

e assim se animava
o garoto deprimido.
o exímio artista do coração errante
só era feliz escondido.

24 de outubro de 2010

Quando a noite já estava densa, naquele horário em que os pensamentos fluem melhor, a menina frágil se transformava em mulher. Era a moça de batom vermelho, ou ainda, em algumas vezes, a moça do salto. Salto?!, diriam alguns. Sim, salto, e você fica linda assim, diria outro, o outro que era único e responsável por toda aquela mudança.
A moça deixava de lado as Barbies de outrora, as lágrimas de insegurança e lá ia ela, sem tropeçar, apenas com um apertozinho no peito, "será que vai dar certo?". Dava, sempre deu. O batom sempre fazia sucesso, o sapato de salto (ainda não tão alto assim; ela começava a se acostumar com a "novidade"), o vestido, a pouca maquiagem nos olhos. "Estou bonita?", ela precisava de segurança. A resposta era sempre positiva. Sorte dela.
E tudo era lindo, e tudo era bom, e todo o sacrifício valia a pena; quando chegava a madrugada, apenas dois sorrisos, um deles tímido, pouco antes do sono dos deuses. Era a recompensa necessária.
Aí via as flores, as estrelas, sentia o perfume da felicidade. Era feliz. Pelo menos por essa noite, sentia-se liberta.

27 de agosto de 2010

Depois da meia-noite, quando a lua estava no alto do céu, eu pensava naquilo. Naquilo que me olhava com ternura de vez em quando. Naquilo que me segurava a cintura com força no momento certo, no lugar certo, durante o tempo certo. Naquilo que me tirava o sono e me fazia ter um brilho incontrolável nos olhos quando dos nossos encontros, noturnos ou diurnos, tanto fazia.
Eu olhava para o escuro do quarto, ali só na madrugada, e pensava "meu Deus, que sorte a minha. Até quando isso vai durar?", chorando, como sempre. Eu sempre chorava. Isso não só me irritava, como ainda me irrita. E muito. Eu ainda tinha aquela coisa adolescente de me doer o amor no peito, como outrora já doera, várias vezes.
O amor citado doía, doía, doía, de tão grande. Ruim? Nããão. Disse um autor famoso "Tão bom morrer de amor e continuar vivendo". É, né? Quem não morre de amor? Será que existe alguém?
Se existe, eu queria ser como essa pessoa. Juro.
Ou não. Eu morro todos os dias, me esgoto até o último suspiro a cada demonstração pura de afeto, e renasço novamente depois dela. Acho que, enquanto pessoa apaixonada, serei uma eterna fênix.
Vinha o sono, calmamente, e encolhia minhas pernas e fechava meus olhos. Lembrava de "Rouge et Blanc", texto lido em uma aula da faculdade.
Ô Aataenstic, mãe dos indianos, ajude-me a manter-me de pé, com ou sem o que me faz doer o peito.

27 de novembro de 2009

E eu ainda me perco em seus olhos...

Li certa vez em um blog que gosto de visitar uma frase que dizia o seguinte:
"Ainda estou me procurando no oceano de seus olhos."
Isso me levou de volta àquela sexta-feira, em que ele deixou seus olhos marejados me molharem os ombros. A sexta-feira decisiva... A sexta-feira em que teve início a mudança da minha forma de observá-lo. Passei a olhá-lo com mais ternura perceptível- ela sempre esteve presente, mas a partir daí deixei-a transparecer, já perdendo um pouquinho do medo que me é característico.
Mudei a forma de observá-lo, como já disse, mas não por isso passei a compreender o que acontece. Ainda é um mistério- ainda é um enorme mistério- para meu coração entender as mensagens sensíveis que ele me envia. Não, ele não é indecifrável: o problema está comigo. Acho que falta sensibilidade e tato de minha parte. Falta parar para ouvir o coração, coisa que não faço já há um tempo considerável. Falta parar para analisar as entrelinhas de nossas conversas. Falta parar para interpretar o tempero daquela comida, aquela gargalhada que é solta de repente, aquela piada que só tem graça para um, aquele olhar terno lançado quando é a vez de meus olhos ficarem marejados...
Enfim, acho que cometo o mesmo erro de tempos atrás. Não me perdoo por ele, pois paguei um alto preço por tê-lo cometido, mesmo com a consciência de que a culpa não foi minha.
Mas desta vez vou me redimir. Navegarei, com sensibilidade e doçura, pelas vagas retirantes de seu inédito e misterioso mar...
Eu vou me encontrar tanto em seu oceano como em sua praia. Ah, vou.

18 de novembro de 2009

Paulo sabia demais

Paulo sabia demais. E isto não é um trocadilho com a piada do Pablo.
Quando cheguei à trágica conclusão de que Paulo sabia além do que devia, resolvi que não havia outro jeito. Então matei-o, com dó e piedade. A situação chegou ao ponto de não haver mais escolha: ou ele me assassinava ou eu dava cabo de sua vida.
Paulo era a minha esperança de redenção. Eu tinha por ele uma afeição especial, e ele percebera isso demasiadamente rápido. Enganou-me com aqueles olhos brilhantes e misteriosos e envolveu-me em uma teia de mentiras. Eu não tinha outra opção. Ele sabia demais. E isso me mataria mais cedo do que eu poderia imaginar.
Eu não me lembro exatamente como foi. Só sei que, quando percebi, estava com a adaga toda ensanguentada nas mãos. Paulo me lançava um último olhar de quem se vingaria, os olhos já sem brilho e sem vida.
Agora estou aqui, com seu corpo estirado em meu quarto, enquanto escrevo este texto. Estou apavorada. Não sei ainda como agir, mas não me arrependo do que acabei de fazer.
A culpa foi toda dele. Paulo sabia demais.

16 de novembro de 2009

Nem tudo é o que parece ser

Nem tudo é o que parece.

Se o sofá tremular de repente,

Pode ser que seja só o seu reflexo no espelho- que tremula com o vento vindo da janela aberta.




11 de novembro de 2009

O medo de Pedro

Pedro era um rapaz bastante supersticioso. Não passava embaixo de escadas, não gostava de gatos pretos e evitava sair de casa nos dias de sexta-feira treze, pois acreditava que algo terrível lhe aconteceria.

Mas o principal era que Pedro cria em tudo o que lhe diziam. "Pedro, não coma leite com manga que faz mal, menino!" E ele não comia. "Pedro, não vá por aquele caminho, pois você pode ser assassinado por algum maníaco!" E ele não ia. Pedro fora muito bem educado pela mãe, que lhe ensinou o respeito e a solicitude. Gostava de ajudar os outros e sua generosidade só era menor que seu receio excessivo.

Veio a era da internet popular e com ela o ICQ, o MSN, o Orkut... E Pedro, ainda que com medo de seu computador ser contaminado por um vírus terrível, possuía uma conta em cada site. Pedro não adicionava desconhecidos à sua conta. Conhecidos, apenas com aviso prévio. Se alguém conhecia Pedro em uma noite qualquer da vida e dizia "Pedro, me adiciona no MSN?", a resposta era imediata: "Desculpe, eu não tenho MSN...". E logo mudava de assunto.

Daí pra frente vieram aquelas correntes, dicas de saúde e coisas do tipo enviadas via e-mail. Pedro seguia todas à risca, religiosamente, e as passava adiante. Pedro enviava às cinquenta pessoas nos quatro minutos de prazo, trêmulo de medo de lhe acontecer um acidente nas 24 horas seguintes. Tomava um litro d'água todas as manhãs, sempre colocava uma laranja no meio da feijoada, não usava mais desodorante, não dirigia mais com medo de que algum maníaco do estacionamento o matasse e não atendia mais telefonemas da polícia. Aliás, não atendia mais o telefone. Não possuía telefone celular, com medo de o número ser clonado.

O tempo passou e as coisas foram ficando cada vez mais difíceis para o medroso Pedro. Não tomava mais leite. Não sabia mais qual religião seguia, se a Católica, a Budista ou a Congressista com Coração de Tigre. O cúmulo foi quando Pedro, virgem, terminou o namoro alegando que sua namorada iria difamá-lo na internet com vídeos de sexo entre eles. "Mas Pedro, você é virgem!!", disse a namorada, embasbacada. "Ainda assim, é melhor não arriscar. Não se pode confiar em ninguém hoje em dia."

Hoje Pedro não sai de casa, com medo do que os outros possam fazer com ele. Não conseguiu passar adiante uma corrente que dizia que, se não a enviasse a duzentas pessoas no mínimo, ele morreria em 36 horas. Até agora Pedro espera, cheio de medo, seu trágico fim. Não confia mais em ninguém e vive isolado, com receio de que alguém o assassine. Quase não dorme, vigiando, e também quase não come. Tem medo de sua comida estar envenenada. Pedro*, coitado, agora tem medo até de si mesmo.

Pobre Pedro.

*Nome fictício para preservar a identidade do personagem.