Pedro era um rapaz bastante supersticioso. Não passava embaixo de escadas, não gostava de gatos pretos e evitava sair de casa nos dias de sexta-feira treze, pois acreditava que algo terrível lhe aconteceria.
Mas o principal era que Pedro cria em tudo o que lhe diziam. "Pedro, não coma leite com manga que faz mal, menino!" E ele não comia. "Pedro, não vá por aquele caminho, pois você pode ser assassinado por algum maníaco!" E ele não ia. Pedro fora muito bem educado pela mãe, que lhe ensinou o respeito e a solicitude. Gostava de ajudar os outros e sua generosidade só era menor que seu receio excessivo.
Veio a era da internet popular e com ela o ICQ, o MSN, o Orkut... E Pedro, ainda que com medo de seu computador ser contaminado por um vírus terrível, possuía uma conta em cada site. Pedro não adicionava desconhecidos à sua conta. Conhecidos, apenas com aviso prévio. Se alguém conhecia Pedro em uma noite qualquer da vida e dizia "Pedro, me adiciona no MSN?", a resposta era imediata: "Desculpe, eu não tenho MSN...". E logo mudava de assunto.
Daí pra frente vieram aquelas correntes, dicas de saúde e coisas do tipo enviadas via e-mail. Pedro seguia todas à risca, religiosamente, e as passava adiante. Pedro enviava às cinquenta pessoas nos quatro minutos de prazo, trêmulo de medo de lhe acontecer um acidente nas 24 horas seguintes. Tomava um litro d'água todas as manhãs, sempre colocava uma laranja no meio da feijoada, não usava mais desodorante, não dirigia mais com medo de que algum maníaco do estacionamento o matasse e não atendia mais telefonemas da polícia. Aliás, não atendia mais o telefone. Não possuía telefone celular, com medo de o número ser clonado.
O tempo passou e as coisas foram ficando cada vez mais difíceis para o medroso Pedro. Não tomava mais leite. Não sabia mais qual religião seguia, se a Católica, a Budista ou a Congressista com Coração de Tigre. O cúmulo foi quando Pedro, virgem, terminou o namoro alegando que sua namorada iria difamá-lo na internet com vídeos de sexo entre eles. "Mas Pedro, você é virgem!!", disse a namorada, embasbacada. "Ainda assim, é melhor não arriscar. Não se pode confiar em ninguém hoje em dia."
Hoje Pedro não sai de casa, com medo do que os outros possam fazer com ele. Não conseguiu passar adiante uma corrente que dizia que, se não a enviasse a duzentas pessoas no mínimo, ele morreria em 36 horas. Até agora Pedro espera, cheio de medo, seu trágico fim. Não confia mais em ninguém e vive isolado, com receio de que alguém o assassine. Quase não dorme, vigiando, e também quase não come. Tem medo de sua comida estar envenenada. Pedro*, coitado, agora tem medo até de si mesmo.
Pobre Pedro.
*Nome fictício para preservar a identidade do personagem.
Tá muito bom o texto! Adorei :D
ResponderExcluirPobre Pedro
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ResponderExcluira vida do pedro nada mais é do q trágica!
ResponderExcluirgostei dessa, mostra como uma superstiçao vira uma paranoia....
so eu ana elisa n sei pq ficou anynha,por isso apaguei a primeira msg e na segunda esqueci de me identificar de novo...rsrsr
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